Introduçao de alimentos complementares

por dra Teresinha Souto, pediatra

Dra Teresinha Souto
Dra Teresinha Souto

Todos sabemos que a amamentação exclusiva ao seio materno até o sexto mês de vida é a alimentação ideal para o bebê. Porém, e a introdução de novos alimentos?

Um assunto muito atual é sobre quando devemos introduzir e quais seriam os antigamente chamados alimentos de desmame (“weaning food”), agora chamados alimentos complementares. Antigamente, a orientação de introdução de ovo era aos 9 meses e peixe a partir de um ano, mas esses alimentos já são liberados a partir dos 6 meses, por exemplo.

Será que devemos aproveitar esse período da chamada “janela imunológica” para oferecer alimentos potencialmente mais alergênicos? Ou será que isso pode trazer mais danos do que benefícios?

Vamos ver o que alguns estudos recentes dizem a respeito.

Para começar, um estudo conhecido como LEAP (do abreviado em inglês: Learning About Early Peanut Allergy) está movimentando a conversa sobre introdução de alimentos no primeiro ano de vida.

Em seu artigo sobre a introdução precoce de alimentos (2) na revista “Brazilian Journal of Allergy and Immunology”, a dra. Luisa Karla Arruda, comenta o artigo do “New England Journal of Medicine” sobre o LEAP (3)

Vejamos: “Este estudo, considerado um marco na área de prevenção de alergia alimentar, parte da hipótese de que a exposição precoce ao amendoim através da pele levaria à sensibilização e, a exposição oral precoce, levaria à tolerância.

Resumidamente, mais de 500 lactentes com idade entre 4 e 11 meses com alto risco de alergia foram aleatoriamente designados para receber amendoim e produtos à base de amendoim (grupo Consumo) ou para evitar amendoim (grupo Evitar). Essas crianças  foram todas testadas com testes cutâneos para alergia à amendoim sendo que 10% delas foram excluídas do estudo por apresentarem pápulas maiores do que 4 mm

food-allergyAs crianças do grupo Consumo foram submetidas a testes de provocação oral com 2 a 3,9 g de amendoim antes do início do estudo e consumiram lanches com amendoim 3x ao dia (6g de proteína de amendoim por semana). As crianças do Grupo Evitar não consumiram esse lanche e foram orientadas a evitar qualquer alimento que contivesse amendoim.

Aos 5 anos de idade, todas as crianças foram submetidas novamente aos mesmos testes. Os resultados foram surpreendentes: a prevalência de alergia ao amendoim no grupo que evitou o alimento foi de 17,2% e no grupo que consumiu o alimento foi de 3,2%!.

A alimentação no primeiro ano de vida parece ser importante para a modulação do sistema imunológico e prevenção de alergias.

[…]

E em nosso meio? Aqui a alergia ao amendoim não é alta como nos Estados Unidos e Inglaterra, mas e quanto aos outros alimentos como leite e ovo? Na verdade, mais estudos precisam ser realizados mas parece que a variedade de alimentos introduzida no primeiro ano de vida pode ser protetora.”

Em outro artigo sobre o assunto, orientado pela nutricionista dra Glauce Yonamine (1) referenciado recentemente na mesma revista do artigo anterior, foi feita uma extensa revisão bibliográfica que sugere um possível (fraco) efeito protetor do aleitamento materno na prevenção de alergias.

Ele ainda conclui que a variedade de alimentos oferecidos no primeiro ano de vida pode ter um fator protetor quanto às alergias.

Vamos tentar agora transportar os resultados destes estudos ao que de fato acontece na realidade brasileira.

Por aqui, quando os pais perguntam ao pediatra quais alimentos introduzir aos 6 meses de idade, costumamos orientar para dar comida de verdade feita em casa. Mas muitas vezes o que ocorre é o contrário: muitos alimentos essenciais como carne de gado, vísceras, ovos e peixes são postergados com o medo de que possam “fazer mal” aos pequenos.

Ao mesmo tempo, alimentos industrializados e cheios de açúcar como biscoitos, farináceos, sucos artificiais e doces, aparentemente “desejados ” pelos bebes são oferecidos para que não “passem vontade”.

alergia-alimentar-comer-de-tudoDiante de tudo isso que apresentei por aqui, deixo algumas perguntas para você que tem filhos pequenos (ou pretende ter).

Será que não deveríamos aproveitar esse período da chamada “janela imunológica” para oferecer alimentos potencialmente mais alergênicos? Será que isso não faria com que nossas crianças desenvolvessem menos alergias no futuro? Será que ao tentar “protegê-las”, evitando sua exposição à alimentos que vão ter algum contato no futuro, não estamos prejudicando-as?

Vejam bem, com os dados atuais somente podemos dizer que poderíamos introduzir amendoim para  as crianças de alto risco, após testes cutâneos com amendoim negativos ou fracamente positivos e com teste de provocação oral negativo para este a alimento.

Por enquanto não temos a resposta definitiva para todas essas inquietações, porém outros estudos como o LEAP devem trazer mais informações no futuro próximo.

Referências bibliográficas

1. Rafael MN, Esteves HC,Yonamine GH. Alimentação no primeiro ano de vida e prevenção  de doenças alérgicas: evidências atuais. Braz J Allergy Immunol. 2014;2(2):50-5.

2.Arruda, LK. Introdução precoce de alimentos na infância: qual a melhor recomendação? Braz J Allergy Immunol.2014;2(2)47-9.

3. Du Toit G, Katz Y, Sasieni P, Mesher D, Maleki SJ, Fisher HR, et al. Early consumption of peanuts in infancy is associated whit a low prevalence of peanut allergy. J Allergy Clin Immunol. 2008;122:984-91.

 

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4 comentários em “Introduçao de alimentos complementares

  • 25 de fevereiro de 2016 em 1:43 PM
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    boa tarde Dra.

    tudo bem? sou um leitor e “seguidor” do seu irmão e gosto muito do seu trabalho e visão sobre a alimentação infantil. Parabéns!

    Tenho dois filhotes que procuro alimentar de forma 100% natural. Enfim, o meu menor acaba de completar 06 meses. Está ainda mamando e já iniciamos com frutas e papas de tubérculos/verduras/carnes. Enfim, ai vai a pergunta, diante do que eu li aqui nesse artigo, podemos oferecer tudo pra ele? claro, comida de verdade…inclusive laticínios fermentados? kefir, iogurte caseiro, etc?

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  • 28 de fevereiro de 2016 em 11:09 PM
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    Ola, Leo. A questão da introdução dos alimentos ao redor dos 6 meses de vida diz respeito à prevenção de alergias porém o leite de vaca integral ou seus derivados não são indicados no primeiro ano de vida pela Sociedade Brasileira de Pediatria por outros motivos como o alto teor proteico e de sódio. Por enquanto, os únicos laticínios liberados antes de um ano de idade são as fórmulas infantis pois elas tentam se aproximar das características do leite materno.

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  • 8 de abril de 2016 em 1:30 PM
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    Doutora, boa tarde!

    Sou um leitor antigo do seu irmão, e hoje pesquisando um pouco acabei encontrando a senhora.

    Tenho um pequeno que com 1 ano e 5 meses… gostaria de saber sobre a fórmula (ele toma neslac), pois ele toma por volta de 3 a 4 mamadeiras por dia… e pensando em uma alimentação não industrializada, gostaria de saber o que poderia fazer para substituir a fórmula.

    A pediatra dele diz para dar leite só após os 2 anos, diz que é para evitar que ele tenha alergia a lactose, mas eu já dou queijos e coisas do tipo. Queria saber se já posso dar o iogurte natural com frutas e coisas assim ?

    Muito obrigado

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  • 22 de outubro de 2018 em 4:02 PM
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    Boa tarde! Sou de Contagem em Minas Gerais (Região Metropolitana de Belo Horizonte). Gosto muito do seu trabalho e estou a procura de um(a) pediatra na minha cidade, que estimule a alimentação paleo. Tem algum pra me indicar?

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